domingo, 7 de novembro de 2010

depois veio a carta...

Na carta ele explicou como realmente se exerce na vida, no amor, no sexo, e tudo mais...ele achava que seria simples, que amor pudesse se exercer com simplicidade, como parecia estar em seu coração. Ela não conseguiu ou não pode entender. Sorriu, brincou, falou, contou suas história, bebeu vinho, e se foi... Ele ficou com um buraco no peito e um choro grudado no olho. No dia seguinte escreveu a carta. Disse que não mais teria tanto cuidado ao se exercer na vida, pois não adiantou nada. Ele, afoito, não tolerava o tempo que nos arrasta. Leu, escreveu, viu filmes, retratos, cozinhou, tocou violão, cantou, conversou com amigos virtuais, e o telefone mudo. Olhava seus livros espalhados pela mesa, pela estante...conversava em silencio com eles...as vezes abria algum..e o escutava. Era tanta gente ali na sua casa falando silenciosamente com ele: Clarice, João Rosa, Raduan, Nol, Carlos, muitos, muitos...Guimarães: ..."eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo..." Ele até ficava pensando que poderia passar o resto da vida ali, entre "os caras"...e que esse negócio de muito amar corpo poderia ser revolvido com o seu próprio...e se resolvia, provisoriamente...Um dia teve uma fantasia: viu-se todo tatuado de letras, mas as letras não formavam frases com sentido. Aquilo ficou matutando na sua cabeça. Esqueceu; mas como se esquece um sonho. Pegou da máquina de escrever e compôs um texto. Era início do séc. XXI. Começou a contar a história do homem que, por amor, virou livro.

sábado, 6 de novembro de 2010

te amo

Falei te amo
Nem passei pelo voglio bene
E fiquei sem pele

Alguém ainda faz isso?
Pergunto ao Outro

Ele ri, generoso
Deixa um pouco de você como sinal
Lembra do choro?
Não se perca tanto
Que sorte que há o corpo
Pra se sair do infinito das palavras

domingo, 17 de outubro de 2010

Debaixo dos meus olhos....

Eles se soltaram das amarras que os prendiam ao seu poder; ao poder das suas palavras; ao gozo. Era uma beleza vê-la sorrir, escondida. Cada fuga era festejada com risos e euforias. Quixotesco, eu brigava contra seus monstros aterrorizantes, mas, quase como fumaça, feitiço, poesia. Mas o que eu vejo não é um texto em que a leitura me embarca; vejo sua imagem comprimida nos olhos - sem choro - mas cheios de dor. O que quer afogar com o desejo? Nostalgio o ciúme que me trazia a esperança e a certeza de que nela vive - não a simples vida - mas, o amor.

sábado, 25 de setembro de 2010

bilhete 4

Ele passou a catar palavras em qualquer coisa: caixa de leite, papel de bala, ticket de restaurante, recibo bancário, capa de livro... E até mesmo onde não havia, ele a via. Sangrando. Mas que vida é essa de tanta gente maluca? Gente me traga o tempo da hora do café da tarde, sem pressa, bolo de milho, cheiro de casa, cão dormindo, papel de pão, percurso pelo caminho que vai dar no sol. Vontade de cantar Samarina...
Mas estou aqui enterrado nesse tempo da preguiça cançada de nada, da vocação forçada, dos olhares famintos mas de que....de que são feitos os desejos que não se realizam? pra onde vão...por que vieram?

domingo, 19 de setembro de 2010

Bilhete 3

Mas o efeito daquele encontro foi surpreendente para todos. A senha do portal estava em cada letra da palavra amor. Todos se perguntavam como podia ser assim. Depois de tudo aquilo ela não se conteve e disse a verdade, não toda. Não foi muito difícil perceber que as consequências seriam nefastas. O que pode ser mais cortante que o amor? O sangue escorreu por todos os lados onde havia fenda, enchendo de um vermelho escarlate o vazio dos corações. Cada um seguiu seu caminho com aquela nódoa no peito. A vida deve prosseguir.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Bilhete 2

Mas um raptor levou o seu olhar de mim. Passada a euforia, o fundo do mar no seu coração. Hoje anda cabisbaixa aguando a terra. O mato cresce no seu caminho escondendo a minha prenda. Formigas trilham cegamente seus sais. Fosse assim imprudente no amor nunca saberia eu o tempo deste mês precipitado em vinte anos. Melhor assim? Vai saber... o corte dos acontecimentos é o talhado que se apresenta. Efêmero no estar, duro no deixar. E você ainda latejando na minha cabeça. Tomo um bilhete com meio copo d'água. Fico achando que você é aquela imagem da foto sorrindo. De matéria sou feito? Clarice bate no alto da minha garganta em pulsos dissonantes: você é o meu sonho! Ando vago, e em cada passo quedo em vertígem. Um solo de guitarra me ampara. Alguém há de encontrar onde foi que deixei a senha deste portal...

domingo, 5 de setembro de 2010

Bilhete

Vazio do real encabulante dos seus lábios, de olhos afogados no mar, salgo a tarde deste mês nos vestígios que catei naquele encontro. O que nos impede? Interditados pelo tempo mássico que nos caiu de pronto sobre nossas cabeças, abro perto do caração selvagem, bolino as palavras de Clarice no afã de que uma mágica faça mover o universo trazendo a mim sua voz. Não ouso perder o prazer de receber tão encantadora prenda. Que perigo mais eu não correria escrevendo verbos? Verso em prosa pra te conquistar o coração? Num mês inteiro - vinte anos - o tempo que amadureceu pra mim uma alma tão doce. Olho o horizonte. Vela. Mar, montes, e te vejo nua deitada em redes, só. Mas antes que este mês termine nos desmaios das ondas cortadas por vinte anos assim, você há de me erguer novamente as pálpebras e queimar-me a pele com seus olhos.